aboreira scriptorium

É pretensão deste espaço, ser um depósito de ideias, tónica de pensamentos do seu autor, sobre a actualidade em geral e com especial incidencia em várias Culturas, no Turismo, no Património e na Gastronomia, em Vila Nova de Poiares, na Região das Beiras/ Portugal e no Mundo. Pedro Carvalho Santos pensa-o ... e faz ...

A minha fotografia
Nome: Pedro Carvalho Santos
Localização: Vila Nova de Poiares, Coimbra, Portugal

Existo e sou crente no meu Deus.

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

"Na realidade uma
vida sem acreditar
não tem sentido.
Mas pior do que não
acreditar
é não ter força para Mudar."
(Pedro Carvalho Santos em 28/01/2009)

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

Prémios Agricolas / Ensino

Prémios Agrícolas – IX


Uma vez abordado o sector Industrial e o sector Comercial, resta-nos observar aspectos relativos ao sector Agrícola no concelho de Vila Nova de Poiares.
Como é conhecimento de todos, a agricultura terá sido uma das primeiras actividades que se desenvolveram no território deste concelho. Inicialmente, tal como em outros lugares, a actividade agrícola assumiu um carácter de subsistência, os agricultores produziam apenas para consumo da família. Numa economia de subsistência produzem-se os mais variados tipos de produtos, por forma a satisfazer todas as necessidades da família. Durante muito tempo os agricultores do nosso concelho tiveram apenas este objectivo. Começam, no entanto a surgir excedentes de produção, o que sobrava o agricultor trocava por outros produtos, particularmente pelos que não produzia ou que necessitava, como roupas, calçado, entre outros. Mais tarde esta troca directa deixa de ter qualquer significado, passando a assumir importância o dinheiro, despoletavam-se assim as trocas comerciais.
Geograficamente localizado numa depressão, poderíamos imaginar nos finais do século XIX, inícios do século XX, um concelho eminentemente agrícola, onde dominavam as pequenas explorações agrícolas, tão características do sistema de minifúndio que desde sempre vigorou no Norte e Centro de Portugal. Pequenas explorações das quais os agricultores os mais variados produtos, desde os cereais, ao vinho ou ao azeite. Procurámos saber que imagem os autores da época nos transmitem de Poiares enquanto concelho agrícola.
Na sua obra, «Portugal Antigo e Moderno», Pinho Leal, informa-nos que o concelho de Poiares tem o solo de calcário, abundando as argilas amarelas que a pouca profundidade daí que a produtividade fosse baixa, para o que também contribuem as baixas temperaturas que aí se registavam. Opina ainda sobre a produção vinícola, alegando a má qualidade do vinho, chegando a classifica-lo mesmo como ordinário. Não podemos deixar de considerar esta visão como bastante pessimista, na verdade não seria bem assim, particularmente no caso do vinho.
Não nos podemos esquecer que Poiares se desenvolve como concelho apenas no século XIX. Com uma infância acelerada, o comércio terá assumido o papel de maior destaque nesse desenvolvimento, no entanto não podemos deixar de valorizar o peso do sector agrícola nesse desenvolvimento. Esta actividade provavelmente não terá tido repercussões nos concelhos limítrofes ou outros mais longínquos, mas não podemos deixar de lhe atribuir um papel importante ao nível da subsistência dos agricultores e do mercado local. Se é esta a visão que podemos ter da actividade agrícola no século XIX, no século XX, a política do Estado Novo vem novamente valorizar esta actividade, pregando o cultivo de todos os pedaços de terra fértil do nosso país. Frutas e legumes, batatas, cebolas e tomates são alguns dos produtos da terra que se comercializavam na feira de Poiares. Se é verdade que alguns dos agricultores vinham de outros concelhos, na sua maioria eram Poiarenses que vendiam o fruto do cultivo da sua terra.
Em 1956 durante o regime de Salazar, foi entregue á Câmara de Poiares uma Menção Honrosa por esta ter enviado duas paliteiras, afim de representarem o concelho na “Exposição Agrícola” para a inauguração do novo Edifício do Palácio de Cristal, na cidade do Porto.
No entanto retomando a questão vinícola, e pelos estudos que temos feito sobre o concelho iremos reflectir sobre este sector, principalmente após termos tomado conhecimento de um certificado internacional atribuído a Poiares no século XIX.
Discordando da opinião de Pinho Leal, estamos em crer que o vinho do nosso concelho não seria nem de má qualidade, nem ordinário, muito pelo contrário. A 27 de Setembro de 1876, numa Exibição Internacional de Vinhos, na cidade de Philadelphia, nos Estados Unidos da América, Poiares é distinguido com um certificado de qualidade.
Por curiosidade que pode despertar ao nosso leitor, acrescentamos que o vinho premiado naquela exposição pertencia á adega do Sr. Joaquim Ferreira de Matos, pai do ilustre poiarense, Doutor Daniel de Matos. Esta colheita era originária duma propriedade designada de Eirado Novo.
Na verdade sabemos que as casas mais abastadas do concelho possuíam adegas, algumas de grande dimensão, poderíamos até considerá-las, face à realidade da época, como verdadeiras «Indústrias do Vinho». Casos conhecidos são as adegas da Quinta do Torrel, da Quinta do Camilo (conhecida também por Quinta da Senhora das Necessidades e Quinta da Machada), da Quinta da Beócia ou da Casa dos Moinhos, bem como outras de maior ou menor dimensão que se distribuíam pelo concelho.
Não nos parece que o vinho produzido nestas adegas não fosse de qualidade. Parece-nos sim que não terá havido mais sucesso fruto das mais diversas circunstâncias, nomeadamente devidos às frequentes ausências dos proprietário que se viam na necessidade de entregarem o cuidado das suas explorações a rendeiros. Por outro lado, alguns proprietários agrícolas exerciam outras actividades que lhes ocupavam grande parte do seu tempo, bem como implicavam muitos investimentos, o que colocava a agricultura em segundo plano. A recente povoação do espaço e a tardia administração do concelho, com os seus vários suprimentos, provavelmente não contribuiu para que existisse mais tradição vinícola no nosso concelho.
Poiares hoje não é concelho de região demarcada de vinhos mas é limítrofe dum desses concelhos da Região Demarcada do Dão, a saber Arganil.


Mensagem aos leitores:

A todos os nossos leitores e em especial aos das Crónicas de História Local, uma quadra Natalícia cheia de Paz, Amor e muita Luz, um Ano Novo muito próspero, com saúde e grande felicidade, com Deus Nosso Senhor a guiar-nos e a ajudar-nos.




Foto 1 :
Certificação de Prémio Vinícola na Exibição Internacional em “Philadelphia” nos Estados Unidos da América em 1876. Arquivo da C.M.P.

Foto 2 :
Diploma de “Menção Honrosa” à Câmara Municipal de V. N. de Poiares na Exposição Agrícola de 1956. Arquivo da C.M.P.



As Primeiras Décadas de Ensino no Concelho – X


A educação, tal como a conhecemos hoje, é um direito que assiste a todos os cidadãos, no entanto nem sempre foi assim. Durante muitos séculos o ensino era um luxo a que só alguns tinham acesso.
Desde a constituição do concelho de Poiares, em 1836, até inícios do século XX, em diversos pontos do concelho, o ensino processou-se em casas particulares. Casas essas que eram convertidas para dar aulas e muitas vezes o professor era o próprio dono da casa. Trata-se de uma situação frequente em todo o país, especialmente nos concelhos mais pobres do interior. Durante a Monarquia e a 1.ª Republica o cenário não sofreu grandes alterações. Só o Estado Novo vem alterar esta situação através de planos para a erradicação da enorme taxa de analfabetismo que então se fazia sentir.
Na época o ensino centrava-se nas mãos dos clérigos. Mesmo antes da constituição de Poiares como concelho, existiam já inúmeros Padres que muito contribuíram para o ensino das letras a jovens que enveredariam pelo caminho da religião, bem como às crianças do nosso concelho. Podemos salientar o ensino na casa da Abraveia, pertença do Padre José Vicente Gomes de Moura, ou ainda nos Seminários que existiram neste concelho.
Num período em que, a nível nacional, era distribuído um subsídio advindo do grande legado do benemérito, Joaquim Ferreira dos Santos, o concelho de Poiares procura também aceder à mais conhecida obra deste benemérito, as Escolas «Conde Ferreira». Assim, Poiares teve uma das 120 Escolas que foram custeadas por este benemérito, a qual se situava junto aos Paços Municipais. Para satisfazer a eventual curiosidade do nosso leitor, podemos salientar que este tipo de atitudes filantrópicas eram comuns no século XIX. Em consequência dos seus actos de beneficência e serviços prestados à causa constitucional, foi concedido a Joaquim Ferreira dos Santos o título de Barão em 1842, de Visconde em 1843 e Conde em 1850.
Os Paços Municipais foram outro dos espaços onde funcionou durante várias décadas uma escola masculina e uma feminina, curiosamente poucas escolas existiam do sexo feminino.
Em 1894, antes do segundo suprimento do concelho, a Câmara insiste com o testamenteiro do legado de Monsenhor Mattos para que se realizasse o seu desejo de construir uma escola primária em São Miguel, sendo que a sua livraria seria deixada para a mesma escola.
Neste mesmo ano em Santa Maria da Arrifana a escola do sexo masculino ocupava parte da casa do padre. No entanto, as condições para leccionar eram bastantes difíceis, nomeadamente pelo facto de chover dentro da escola, prejudicando a saúde do professor e dos alunos, bem como a falta de condições higiénicas. Assim o professor solicitava à Câmara melhorias a este nível, pedia também para que lhe fossem processados as folhas das rendas da casa de residência do ano de 1893 e 1894.
Na verdade, o ensino dos mais novos era precário e de difícil acesso. Não que o próprio Estado não orientasse os Governos Civis e estes as Câmaras no sentido de algum sucesso da aprendizagem das primeiras letras, mas vivia-se num país fortemente analfabeto. As escolas fechavam durante meses pelos mais variados pretextos, como sucedeu no nosso concelho em 1898, depois de Poiares ter sido restaurado definitivamente, quando que a escola de “sede nésta Villa ... se encontrava fechada ... a bastantes mezes”.
Em 1931, encontrava-se em execução o processo de expropriação do terreno onde se encontrava a escola da Vila, no sítio do Barreiro, no entanto o mesmo terá sido doado. Depois de o ensino ter funcionado em casas particulares, na escola Conde Ferreira e nos Paços do Concelho, iniciavam-se, sob a tutela do Estado Novo, os planos de combate à analfabetização em Portugal. A Escola de Poiares foi uma das que beneficiou do Plano dos Centenários. Esta designação foi dada a inúmeras escolas feitas durante o regime de Salazar, para definir as construções escolares dentro deste plano de construções.
Neste mesmo ano é concluída a escola de Vale do Gueiro, estando apenas à espera de ser equipada e de entrar em funcionamento. Elementos que compõem a Câmara da altura reúnem-se em Coimbra afim de obterem autorização para serem criadas as escolas de Abraveia, Vila Chã e Venda Nova. Em 1937 é solicitada a interferência do Governador Civil para a construção da Escola na sede de Freguesia de Santa Maria. Em 1938, no dia um do mês de Dezembro comemorava-se o feriado com um programa escolar e desfile de todas as crianças das escolas, é o que nos mostra a figura, na qual também podemos ver o quão diferente era a Vila de Poiares.
Nos anos ’30 foi grande o fomento de construções escolares em Portugal. Durante esta década assistimos ainda à ordenação de que todas as salas de aula deveriam possuir os retratos do Presidente da República, do Presidente do Concelho e uma Imagem de Cristo, como concerteza alguns dos nossos leitores tão bem se lembram. Era o pensamento que pretendia unir o país, a trilogia do Estado Novo.
Até ao final do regime foram criadas escolas em todas as sedes de freguesias de Poiares e nos maiores lugares do concelho, todas estas em edifícios próprios.
Hoje e nos últimos anos a temática do ensino tem sido analisada numa outra óptica, pelo que não iremos desta vez abordar esta questão, mas numa próxima oportunidade.



Foto:
Comemorações do 1.º de Dezembro levadas a efeito em 1938 pela Câmara Municipal de Poiares, «Desfile das crianças das escolas». Arquivo da C.M.P.

Brasões no Concelho de Vila Nova de Poiares / Mercados

Brasões no Concelho de Vila Nova de Poiares - VI

A simbologia está patente em todos os locais por onde circulamos, desde os simples símbolos de produtos alimentares aos mais complexos símbolos de clubes desportivos e associações. Como é óbvio, o concelho de Poiares não se encontra desprovido da mais diversa simbologia. Aqui poderemos encontrar os mais variados símbolos, sejam públicos ou sejam privados, sejam comerciais ou políticos, sejam de distinção ou de nobilitação.
De uso corrente na ciência, na arte, na literatura, na linguagem, na vida social, o símbolo leva-nos ao conhecimento de uma realidade, mais ou menos conhecida. Ao nível do simbólico vamos encontrar o mote da nossa dissertação – os brasões – os quais não são mais do que um símbolo, de uma família, de um país, de uma cidade ou de uma vila.
Relativamente aos brasões existentes neste concelho, a sua maior parte refere-se a instituições administrativas locais, ou tem origem monárquica.
De uma forma simplista poderemos considerar os brasões monárquicos como símbolo da nobilitação de determinada família, em virtude dos feitos de algum dos seus membros, por parte do poder régio. No concelho de Poiares existem três brasões monárquicos.
Na Póvoa da Abraveia, um dos mais antigos lugares do concelho, houve em tempos duas casas brasonadas. Um desses brasões, encontra-se na actual Biblioteca da Câmara Municipal, tendo sido pertença de D. João Casimiro de Mascarenhas, fidalgo da Casa Real, Capitão–Mor de Penela, muito antes do nascimento de Poiares como concelho. O outro brasão permanece no local original, tendo sido pertença de uma ilustre família descendente de D. Nuno Álvares Pereira de Melo, 1.º Duque do Cadaval, 4.º Marquês de Ferreira e 5.º de Tentúgal e Mordomo–Mor da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia.
No lugar de Vila Chã existe um solar com um brasão que pertenceu à família de José de Mattos Ferrão Castelo–Branco e Serra. A família dos Ferrões e Castelo–Branco, exerceram grande influência nos destinos do Concelho no século XIX, tendo assumido posições de destaque social.
Não poderíamos terminar sem focar o brasão que se encontra na fachada dos Paços do Concelho, o qual representa as armas de El Rei D. Luís, monarca reinante aquando da construção deste edifício.
Com a queda da Monarquia, desapareceu também a possibilidade de nobilitação e consequentemente o surgir de novos brasões monárquicos. No entanto permanece um outro tipo de brasões, agora estreitamente ligados à Administração Local. A este nível poderemos observar o brasão do concelho, o da freguesia de São Miguel de Poiares e o da freguesia de Lavegadas.
O brasão do concelho concebido na década de ’30, foi o concretizar de um anseio que vinha desde a fundação do concelho, pois desde cedo se considerou de extrema importância a existência deste símbolo. Caracterizado por dois pinheiros bravos, com duas andorinhas e uma abelha em chefe; coroa mural de quatro torres com listel contendo os dizeres: Vila Nova de Poiares.
Mais recentes são os brasões das freguesias de São Miguel de Poiares e de Lavegadas. O brasão de São Miguel é composto por, duas faixetas ondeadas, tendo por cima uma balança, com dois pratos azuis e uma espada de São Miguel; encontramos ainda uma ponta de ramo de oliveira e duas mós de moinho, coroado por coroa mural de três torres com listel contendo os dizeres: São Miguel de Poiares.
No brasão da freguesia de Lavegadas poderemos observar o Dólmen de São Pedro Dias, a ponte de Mucela, o rio Alva, e as açucenas de São José. É coroado por um mural de três torres com listel contendo os dizeres: Lavegadas.
Para o observador menos atento lembramos a distinção que existe, no campo da Administração Local, entre os brasões de cidade, vila e freguesia. Enquanto o brasão de freguesia é coroado por uma coroa mural de 3 torres, o de vila apresenta uma coroa de 4 torres e o de cidade uma coroa de 5 torres. São estas 5 torres que esperamos ver um dia a coroar o brasão Vila Nova de Poiares. E, se nos permitem a ousadia, poderíamos já antever o nosso brasão daqui a alguns anos, com a quinta torre que será orgulho de todos os Poiarenses. Este símbolo poderá ser considerado por alguns de vós como utópico, mas a verdade é que quando se aponta para que dentro de alguns anos a vila de Poiares seja elevada a cidade, está-se a criar essa quinta torre de “ouro” que honrará o Progresso e o Desenvolvimento do concelho, bem como todos os Poiarenses que contribuíram para a sua implementação. Isto porque não nos podemos esquecer que o Presidente da Autarquia Jaime Carlos Marta Soares tem como desejo que Vila Nova de Poiares seja «...num futuro pouco distante uma média cidade de capital importância no distrito de Coimbra e da própria região Centro do país...».
Continuando no percurso das sugestões, não nos podemos esquecer que existem duas freguesias no concelho que ainda não possuem o seu brasão. Como tal não vamos perder a oportunidade de convidar os Senhores Presidentes das respectivas Juntas de Freguesia a ponderarem a possibilidade de os elaborarem, para o que poderemos apontar algumas sugestões.
No caso da freguesia de Santo André, porque não fazer uma alusão à lenda de D. Afonso Henriques (Vimieiro). Não se considere novidade, o brasão da cidade de Faro é um dos que representam uma lenda. O próprio Dr. José M Ferrão, nos anos ’30, chegou a propor que esta lenda constasse no brasão do concelho.
Quanto à freguesia de Arrifana, não deixaria de ser interessante enaltecer o antigo porto fluvial de Louredo, verdadeiro pólo comercial no século XIX e inícios do século XX, de influência a nível regional.
Como foi referido anteriormente, estas palavras não passam de meras sugestões, que poderão ou não ser tidas em consideração por quem de direito. Acima de tudo pensamos que podem ilustrar traços da nossa História, que se devem marcar e realçar por forma a reforçar a História Local de Poiares, que tantos teimam em considerar inexistente.
















As Actividades Comerciais
Feiras e Mercados VII


Polo de desenvolvimento de uma região, as feiras e os mercados são factor primordial desde os tempos mais antigos em todos os cantos da Terra. Desde tempos remotos que os homens deixaram de viver exclusivamente em economia domestica e passaram a viver fazendo trocas, primeiro directas e depois indirectas (ou seja monetária). Começaram por produzir mais do necessitavam, gerando excedentes que sabendo que com esses próprios excedentes poderá adquirir o que necessita a outros produtores. E assim nascem as primeiras formas de troca e de compra.
Podemos designar as feiras por lugares, geralmente descampados e descobertos onde se juntam feirantes em certos dias ou épocas para oferecerem produtos que pretendem vender. Em tempos mais recuados armavam-se barracas de comes e bebes e por vezes teatrecos (que popularmente alguns se apelidavam de Robertos) que eram a alegria de miúdos e graúdos, isto num tempo em que a realidade era tão diferente da actual.
Outro tipo de feiras se realizaram e outras por fortes tradições ainda hoje se realizam, como as feiras especificas de vários produtos; de gado, feiras cavalares, feira das castanhas. Há ainda as feiras francas, feiras onde não se pagam direitos. Os mercados são lugares ao ar livre em cidade ou aldeia em que se vendem géneros alimentícios ou diversas mercadorias. Outros tipos de mercado existem mas não falaremos deles visto não ser este o propósito do presente artigo.
Sabemos que as feiras no que é hoje o Concelho de Poiares, já existiam há centenas de anos e não é fácil saber como terão aparecido. Inicialmente cremos que fosse onde hoje é a povoação de Santa Maria, estando em ligação com o porto fluvial de Louredo. Com as novas vias de comunicação que se desenvolveram e com o maior povoamento de Poiares (Santo André) a feira deslocou-se também para este local, havendo a possibilidade de ter sido ela a responsável pelo desenvolvimento da povoação de Santo André de Poiares.(Um padre que cansado com o barulho expulsou a feira do local). É com a vinda destes feirantes à segunda – feira que a povoação de Santo André de Poiares terá começado a progredir.
Durante muito tempo coexistiram duas feiras. Uma de Produtos de vária ordem, como artigos ligados ao hoje chamado artesanato (que nesta altura eram artigos mais utilizados, como potes, cântaros de barro, vasos, tapeçarias variadas, cestos, palitos e outros, produtos hortícolas, como favas, ervilhas, batatas, e demais produtos da terra , produtos de panificação, como pão e bolos, peças de vestuário, artigos de ourivesaria, relojoeiros, e muitos outros produtos.
Outra feira de animais (conhecida por feira dos bois) que se realizava de 15 em 15 dias e onde se transaccionavam animais de grande porte, (gado) como gado muar, bovino, suíno, caprino, ovino e outros, a saber, bois, vacas, cavalos, burros, cabras, cabritos, ovelhas, bodes, porcos e animais de pequeno porte como aves de capoeira e outros bichos caseiros. Galinhas, perus, coelhos e outros bichos que tais.
Os locais onde as feiras se realizaram foram diversos. Desde a zona do fundo da vila onde poderá ter existido uma Igreja, local onde os mais antigos chamavam «Adro», ao lugar da estrada do cemitério ao largo da Capela de Nossa Senhora das Necessidades, ao local junto a Ribeira de Poiares, á própria Vila onde hoje se encontra o Jardim de Santo André, todos eles foram utilizados para comerciar os mais diversos produtos nas feiras que se realizaram em Poiares.
Registo que não deixa de ser interessante é o facto de em 1900, exactamente há 100 anos, o então Presidente da Câmara Municipal, senhor José Henriques Simões ter proposto á Câmara que se solicita-se ao Governo de Sua Majestade que fossem isentos de licença todos aqueles que expusessem géneros à venda em pequeno comercio nos mercados do concelho. Outra nota de pormenor é o facto de durante dezenas de anos a Câmara realizar praças para a limpeza do lixo das feiras. Na realidade nestas praças era o lixo arrematado por determinada importância. O lixo das ruas da Vila de Poiares e o lixo das feiras, eram designados de «Lixo de Montaria ?».
Existia a praça do peixe, onde se vendia este produto que desde os tempos mais recuados vinha em carroças de bois e posteriormente em camionetas até ao local de venda, ou até mesmo algumas peixeiras o traziam em cestas na camioneta de carreira de Coimbra. Por várias vezes temos registos sobre queixas que no inicio do século eram feitas por os proprietários confinantes com a feira da sardinha, em que expunham os prejuízos que tinham por o sal invadir os seus terrenos. Caso da Quinta do Torrel de Baixo em que o proprietário Dr. José M. D. Ferrão se queixava dos prejuízos na sua vinha. Ainda no inicio da década de 60’ haviam queixas das águas do mercado do peixe de se infiltrarem nos terrenos desta família. Posteriormente foi feito um poço para onde ia o sal que vinha dessa feira, atenuando o problema.
Que interessante será se tivermos a sensibilidade para pensar no tempo em que viveram os nossos pais e nossos avós, desprovidos de rádio, de televisão, de computadores de tudo o que nos rodeia.
Ouçamos os ruídos, ... o barulho das pessoas, das coisas, dos animais!
O ruído que ouvimos, será de vendedores ?
A terra batida, o feno, o mato, os cheiros e odores, as conversas, os gritos e pregões!
São os charlatões a apregoarem a «banha da cobra» para todos os males, é uma concertina que toca, uma galinha que foge, um cavalo que relincha, uma poça de água no chão, ... um lamaçal lá a frente!
Senhores, sim, senhores de respeito, de fato e colete, ou descamizados de trabalho, sim de trabalho arduo das terras, das pedreiras da serra, de bicicleta ou a pé, de cavalo ou de mula, quem sabe algum de carro, conforme os tempos. Vieram de várias terras vizinhas, para comerciarem, para falarem, ... falarem de que ? Da sua vida, dos seus afazeres, da política, do rei, do governo ou dos senhores das terras, ou simplesmente do senhor que acabou de passar e anunciava a nova peça de teatro que iria estrear: « ...venham ver, ... da terra á lua, ... venham ver, ... no teatro do Barreiro, ... etc. ...».



Post escritum : Agradecimento ao Senhor Alberto Santos pelas informações que nos prestou.

Segunda-feira, Julho 21, 2008

Contributos para a História Local de Vila Nova de Poiares V



Nascido no século em que a Revolução Industrial teve o seu grande impulso, o concelho de Poiares desde cedo desenvolveu essa importante vertente económica. Considerado por muitos como um concelho eminentemente agrícola, não podemos deixar de lhe atribuir um carácter industrial. Iremos abordar ao longo desta crónica, bem como nas duas que se seguirão, as actividades transformadoras que existiram e existem no concelho de Vila Nova de Poiares, particularmente as actividades industriais.
Se considerarmos Indústria como sendo uma actividade transformadora de matérias-primas num produto final destinado ao mercado, no concelho de Poiares foram implantadas diversas actividades que se inserem neste domínio, como o provam vários documentos. Como é óbvio, o processo produtivo no seu início era completamente distinto do que conhecemos na actualidade. A própria produção era em quantidades francamente inferiores, não se atingindo a produção em massa dos nossos dias. Felizmente encontram-se ainda preservados algumas destas indústrias mais tradicionais que nos permitem recuar a tempos idos.
Os moinhos de vento são documentos vivos dessa actividade. Fonte de receitas para o nosso concelho, sabemos que a moagem de cereais se desenvolveu a par com os concelhos vizinhos, particularmente com Penacova. Os produtos transformados vendiam-se não só na cidade de Coimbra, mas em todo o Baixo Mondego. Situados em áreas elevadas por forma a aproveitar a força do vento, os moinhos foram desaparecendo com a brisa dos tempos. No alto da Serra do Carvalho, nos Terreiros, encontramos vários moinhos de vento algo degradados, tendo a Associação de Desenvolvimento Integrado de Poiares restaurado in sito um deles, encontrando-se à disposição dos visitantes.
Relacionado ainda com a moagem dos cereais, as azenhas assumiram também um importante papel na vida económica do concelho. As águas do rio Alva serviram de força para mover as rodas das azenhas. Ainda hoje podemos observar no lugar da Ponte de Mucela, sito na Moenda, uma azenha em funcionamento que nos mostra de um modo mais tradicional como podemos obter a farinha dos diversos cereais.
A existência de fornos de cal no concelho também foi relevante. O concelho de Penacova, bem como o de Poiares foram grandes centros de produção de cal, elemento de grande procura numa época em que eram inexistentes as indústrias químicas da actualidade. Podemos salientar a importante produção por parte dos fornos de cal propriedade da Casa dos Moinhos, um dos quais podemos ainda hoje observar no Parque das Merendas, no lugar das Medas.
A produção de cera assumiu também um importante papel na economia concelhia. A fábrica de cera, ou lagar da cera, permitia as trocas comerciais com concelhos vizinhos e outros mais distantes. Na Casa dos Moinhos encontramos um lagar de cera no qual, apesar da sua degradação, podemos constar os vários passos ou etapas que eram dados para a produção de cera.
Num concelho em que a agricultura se assume como uma actividade de suma importância, não nos podemos esquecer que alguns dos seus produtos se podem dirigir a um processo produtivo distinto. Poiares apresentou uma importante actividade vinícola que não pode deixar de nos merecer atenção, particularmente em virtude do peso assumido pelas suas adegas. Através de diversas fontes históricas analisadas, tomamos conhecimento de uma polémica que, no segundo quartel do século XX, girava em torno da qualidade do nosso vinho. Se à época havia quem o achasse pobre e sem grau, de pouca qualidade, como é a opinião de Pinho Leal na sua obra «Portugal Antigo e Moderno», a verdade é que o vinho de Poiares chegou a ganhar um prémio de qualidade no Brasil. Os alambiques proliferavam por todo o concelho e se o nosso leitor pensar que eram apenas economias pequenas e familiares, está equivocado, provando-o estão as adegas de grandes casas burguesas e de quintas grandiosas deste concelho. Caso evidente é a adega construída nos primeiros anos de novecentos, no denominado Torrel de Baixo, propriedade do Dr. António Dias Ferrão Castelo Branco, as suas dimensões e o cuidado com que se construiu o edifício só poderia evidenciar uma grande produção.
O azeite é sem dúvida um dos produtos cujo progresso foi dos mais peculiares e representativos do concelho. Na realidade Poiares teve vários lagares de azeite, actividade que sem dúvida trouxe um desenvolvimento económico e social fortíssimo ao concelho que permaneceu até aos nossos dias. A comercialização de produtos oleaginosos foi, desde a fundação do concelho, factor primordial no equilíbrio da débil economia agrícola do concelho.
Para além de todas estas actividades, podemos salientar outras que se assumiram como importantes para o desenvolvimento económico e social do concelho. É o caso da produção de mós, com valor acrescido no concelho e região. A produção de foguetes e de fogo de artifício, foi prática corrente na primeira metade do século XX, produção essa que ultrapassava os limites do concelho, bem como os concelhos limítrofes, alargando-se a nível nacional e às colónias ultramarinas.
Na nossa próxima crónica, continuaremos a debruçarmo-nos sobre as actividades transformadoras do concelho de Poiares, desta feita procurando conhecer melhor actividades como a cerâmica, a serração e o artesanato.

Conforme o prometido, vimos dar continuidade à temática iniciada na última crónica.
No nosso entender, para além das actividades apontadas anteriormente (moagem de cereais, produção de cal, de cera, pirotecnia, azeite, vinho, etc.), há outras que pela sua dimensão e importância comercial fazem com que nos debrucemos um pouco mais sobre elas: o artesanato, a serração e a cerâmica.
O artesanato foi, sem sombra de dúvida, de uma importância extrema no concelho, particularmente na produção dos chamados «palitos de dentes», basta pensarmos no número de famílias que dependiam desta actividade. Segundo as nossas fontes escritas, em 1949 os exportadores de palitos dos concelhos de Poiares e Penacova, faziam uma exposição aos respectivos presidentes de Câmara, a fim de estes poderem sensibilizar os seus superiores relativamente à importância desta produção. Coube a estes Presidentes dar conhecimento ao Governo Civil de Coimbra da importância económica desta produção e consequente exportação. Dada a saturação do mercado nacional, o Brasil assumia-se como um importante consumidor deste produto, seria fundamental confirmá-lo.
No seguimento de um ofício emanado da Coordenação Económica do Ministério da Economia, nos finais de 1951, o Presidente da Câmara de Poiares toma conhecimento que a Embaixada Portuguesa no Rio de Janeiro, na lista de produtos a exportar de Portugal, contemplava os palitos. Face a tão boa notícia a Câmara de imediato informou os exportadores de palitos, Sr. Celestino Lopes Quaresma e União Exportadora de Chelo Limitada. No entanto 15 dias depois ocorre um retrocesso neste processo, na medida em que o Governo Brasileiro não veio a emitir as licenças que permitiam a importação dos palitos.
Durante várias décadas os palitos foram sem dúvida o cartão de visita em certames fora do concelho. Um exemplo disso é o facto de em 1956 a Câmara ter decidido enviar duas paliteiras a fim de representar o concelho na Exposição Agrícola, pela inauguração oficial do novo edifício do Palácio de Cristal.
Dentro do que hoje apelidamos de artesanato, para além dos palitos, a produção de cestas e cestos, de mantas, de produtos de barro, particularmente os barros pretos, e os objectos de madeira, entre outros, assumiram também grande importância económica no concelho.
Actividade de grande importância para o concelho, a transformação de madeira, perdurou até hoje. Concelho com forte cunho florestal, Poiares desde cedo teve indústrias ligadas a esta actividade, particularmente relacionadas com a madeira característica do concelho – o pinho (daí o pinheiro ser um dos elementos simbólicos do brasão de Poiares).
Das três actividades mencionadas, resta-nos abordar as cerâmicas. Embora as serrações assumissem já algum do carácter industrial que hoje facilmente identificamos, são as cerâmicas que melhor caracterizam essa actividade. As cerâmicas foram das primeiras indústrias a necessitar de um espaço mais alargado para a sua instalação, dada a dimensão das suas máquinas e o número de operários que empregavam, bem como são aquelas nas quais mais facilmente apontamos os símbolos da Revolução Industrial – as chaminés. A Cerâmica Santa Rita, de que ainda hoje podemos observar as suas ruínas, e a Ceramiguel, uma indústria de cerâmica desactivada há poucos anos, são um bom exemplo disso.
Durante a década de 50 sabemos da intenção de fabricar artigos de grés e de fazer exportações para o Brasil por parte da Cerâmica Santa Rita. No que diz respeito à Ceramiguel, esta esteve essencialmente vocacionada para a construção civil.
Apesar da importância que todos estes sectores assumiram no desenvolvimento económico e social do concelho, a actividade industrial manteve-se pouco activa e sem grandes alterações até meados da década de setenta deste século. É pelo menos esta a ideia que nos fica da análise da Monografia (1978) de Manuel Leal Júnior, para quem «...Poiares não dispõe da indústria necessária para o seu desenvolvimento...». Segundo este autor, as várias actividades industriais, palitos, cestos, canastras, assim como louça de barro, serração, cerâmica, que assumiram um certo vulto, acabaram no entanto por não acompanhar a evolução macro-económica do país. Manuel Leal Júnior, apesar deste cenário, não tinha uma visão futura de todo negativista, na sua opinião «...é de prever que dentro em pouco, com a construção de casas em bom ritmo, Poiares se desenvolva principalmente na parte industrial...». Do que conhecemos hoje, pensamos que foi realmente uma perspicaz previsão! Terá contribuído para isso o vento de mudança de ’74.
Serão estes ventos de mudança que irão nortear a terceira e última parte desta crónica alargada acerca da actividade industrial no concelho de Poiares

Terminamos no último mês analisando a perspectiva de Manuel Leal Júnior relativamente à actividade industrial no concelho de Poiares.
Estas considerações por parte de Manuel Leal Júnior pouco favoráveis a esta actividade são fáceis de perceber se tivermos em conta a evolução global do país. Apesar de a nossa análise se encontrar restringida a um espaço geográfico bem delimitado, não nos podemos esquecer de que este faz parte de um espaço muito mais vasto – Portugal. Como tal, todo o processo de industrialização do concelho se encontra estruturado segundo a industrialização do próprio país. Devido a diversas condicionantes o nosso país entrou muito tardiamente no processo de industrialização. Enquanto já no século XIX a Inglaterra estar em pleno período da Revolução Industrial, Portugal encontrava-se fora deste processo, de tal modo que na viragem do século XX, ainda não tinha entrado nos meandros da industrialização.
É por volta dos anos 30, século XX, em pleno Estado Novo, que se começam a dar os primeiros passos em direcção à industrialização, ficando todo este processo sob tutela do Estado. Até aos primeiros anos da década de 70 verificou-se uma crescente concentração e centralização do processo produtivo, ou seja, um crescimento acentuado das grandes empresas, as quais se concentram nas duas grandes cidades do país – Lisboa e Porto. O início da década de 70 começa com sucessivas crises petrolíferas e consequentes crises económicas, advindo daí uma alteração no modo de encarar o desenvolvimento económico e social. Começam então a surgir novas localizações industriais, reflexo de um processo de descentralização e expansão industrial.
Na década de 80 começa a assumir uma grande importância o designado crescimento industrial difuso, que caracteriza grande parte do território nacional, particularmente o Norte e Centro Litoral. Este processo de crescimento industrial é, em geral, caracterizado pela predominância de Pequenas e Médias Empresas, difundidas em pequenos aglomerados populacionais. Este “espalhar” das indústrias por diferentes áreas do país é reflexo do papel dinâmico das Autarquias, ou das Associações Empresariais, ou ainda fruto da criação governamental de novas e importantes infra-estruturas que favorecem essas áreas, nomeadamente as redes viárias. Como é de conhecimento de todos, a adesão de Portugal à actual União Europeia em 1986, veio dar um novo alento ao desenvolvimento do país.
É neste período que podemos enquadrar o volte-face no processo de industrialização do concelho de Poiares. Aproveitando uma política de descentralização industrial, centrada na criação de Pólos ou Zonas Industriais, bem como todos os fundos europeus para o desenvolvimento económico, e particularmente industrial, a Autarquia de Poiares conseguiu dar o impulso fundamental para o desenvolvimento industrial do concelho, com todos os benefícios económicos e sociais que daí pudessem advir.
Criada na década de 80, a Zona Industrial de Poiares, fruto da vontade da Autarquia, bem como de outros agentes económicos, é já hoje uma realidade vitoriosa. O desejo do seu alargamento, que em breve será concretizado, ilustra bem a importância desta implantação industrial, factor de riqueza nunca antes experimentado neste concelho. Seguindo as orientações emanadas por instâncias superiores, a Zona Industrial apresenta-se como um todo, homogéneo, geométrico e proporcional. As infra-estruturas existentes, as facilidades concedidas a novos empresários, tornam-na sem dúvida um importante pólo de atracção para a implantação de novas industrias e empresas diversas.
Inicialmente apresentado um número restrito de empresas, actualmente são diversos os sectores industriais implantados nesta Zona Industrial. Indústrias de mármores, cerâmica, madeiras, ferragens, confecções, luvas, móveis, etc. Encontramos também a oferta de alguns serviços (relacionados com o sector secundário), desde oficinas especializadas nas mais variadas vertentes, mecânica, pintura, recauchutagem, bate-chapas, electricistas. Bem como os mais variados armazéns comercias, nomeadamente de construção civil, entre outros.
Permitindo uma oferta mais alargada por parte desta Zona Industrial e complementando as actividades do sector secundário, estão também presentes alguns importantes elementos de carácter recreativo, que contribuem para o bom nome do concelho. Na área envolvente, a nascente e a norte, encontramos algumas pistas desportivas, como a de radio-modelismo, auto-cross, Kart-cross e o esplêndido Kartódromo. Futuramente esta área será complementada com outros investimentos desportivos e recreativos.
Digna do orgulho de qualquer Poiarense, a sua Zona Industrial é um pólo de atracção de juventude e de criação de empregos, um elemento de fixação de população e de elevação do nível de vida das populações locais. Como tal deverá ser encarada por todos como o ex-libris da actual economia do concelho. A Zona Industrial de Poiares não só é uma aposta no futuro, mas uma aposta ganha no presente, assumindo-se como uma marca forte e definida do século XX.








Contributos para a História Local de Vila Nova de Poiares IV

A Água e a sua Distribuição


A temática da água, particularmente a sua futura escassez, tem dominado as cimeiras ambientais que se realizam por todo o Mundo. Já alguma vez se questionou acerca da razão pela qual a Terra é designada como o Planeta Azul? A resposta é bem simples. Apenas 29 % da superfície terrestre é constituída por continentes (na sua maior parte concentrados no hemisfério norte), sendo 71 % do nosso planeta ocupado por mares e oceanos. Pode parecer contraditória a nossa preocupação com a falta de água, mas a verdade é que a quantidade de água potável que temos disponível é cada vez menor, daí a importância da sua racionalização e distribuição.
Para a sobrevivência do Homem a água é fundamental, nomeadamente para saciar a sua sede, para preparar os seus alimentos, para fazer construções. A água sempre serviu para satisfazer as necessidades dos Homens, dos animais e das plantas. A importância deste líquido, em antigas civilizações, permitiu que o mesmo fosse associado ao sobre-natural, tendo mesmo algumas dessas civilizações adorado numerosos deuses aquáticos.
Há milénios que o Homem controla a água para seu benefício, construindo barragens e diques, poços e galerias para a captar. Foram numerosas as civilizações que nasceram junto a grandes rios, como o Tigre, o Eufrates, o Nilo, o Indo, entre outros. Da Antiguidade Clássica poderíamos ir buscar o exemplo de Roma, ou da grande civilização do Egipto. Desde sempre os Egípcios souberam aproveitar a riqueza que lhes era oferecida pelas águas do Nilo. Os Romanos, senhores da engenharia, deram grande impulso às construções hidráulicas, souberam captar através de grandes rodas a força motriz da água que passava por rios e ribeiras de maior caudal, que utilizavam para a moagem dos cereais. Surgiam assim as primeiras azenhas.
Mais tarde, já na Idade Média, o trabalho manual foi gradualmente substituído por máquinas hidráulicas, utilizadas para esmagar azeitonas, sementes, bem como nas serrações para cortar a madeira, ou no apisoamento de fibras e tecidos, ou ainda nas metalúrgicas, em que a força da água fazia accionar foles e forjas.
Nos finais do século XIX, inícios do século XX, fruto de novas tecnologias, a água começa a ter as mais diversas utilizações. A sua estreita ligação com as actividades do campo e domésticas é subitamente alargada. Com a descoberta da electricidade, a água passa a assumir um novo papel na sociedade. As turbinas hidráulicas e as bombas rotativas, utilizadas nas barragens para a produção de electricidade, introduzem uma nova etapa no aproveitamento da água e sua distribuição para os mais variados fins.
Nas suas primeiras décadas como concelho, Poiares via os seus habitantes abastecerem-se de água potável recorrendo a poços e minas. Mais tarde foram sendo construídas várias fontes de chafurdo (foto 1), as quais se mantiveram até às primeiras décadas do século XX. Estas obras, sempre com os apoios do Governo, evoluíram segundo as capacidades económicas do país. A verdade é que durante a Primeira República, o concelho de Poiares evoluiu muito pouco ao nível da distribuição de água aos diversos lugares que o compõem.
Será sob o peso do Estado Novo que teremos uma maior difusão no abastecimento de água às localidades do concelho. Os chafarizes (foto 2), substitutos das fontes de chafurdo, foram uma das grandes prioridades da política local de então. Processo iniciado já na década de 30 tendo o seu auge nas décadas de 50 e 60, a substituição das fontes de chafurdo por chafarizes e fontanários públicos foi factor de relevo como medida de combate a doenças e infecções. Iniciou-se também a distribuição domiciliária de água, mas apenas a sede do concelho e algumas povoações da mesma rede tiveram essa benesse. Nas inaugurações de 1957, é inaugurado o depósito de água da Ferreira, assim como vários chafarizes distantes da sede do concelho, nomeadamente nas Ribas, Forcado, Algaça, Vila Chã ou Vale de Vaz.
No entanto a grande obra da rede de abastecimento domiciliário de água seria desenvolvida nos anos setenta e oitenta. Recorrendo a projectos e comparticipações do Estado, é com a construção da Estação Elevatória de água da Ronqueira que o caudal de água se torna suficiente para grande parte do abastecimento. Esta obra sofreu um alargamento, nos anos oitenta, através da construção de inúmeros depósitos de água que contribuíram para uma mais vasta distribuição da mesma a todo o concelho. Hoje a zona oriental conta ainda com o abastecimento da Estação Elevatória da Ponte Mucela, contribuindo para uma maior eficácia no abastecimento desta fonte de vida.
Apesar de muitos concelhos no nosso país ainda não terem completado o seu abastecimento de água, o concelho de Poiares encontra-se já a preparar a reestruturação da sua rede de abastecimento de água. Dos cerca de 500 fogos abastecidos por este precioso líquido, por volta de meados dos anos setenta, hoje o concelho de Poiares conta com abastecimento domiciliário de água a quase 4 000 fogos.
Novos materiais, permitem que se remodelem e criem novos abastecimentos domiciliários de água com maior durabilidade (foto 3). Os chafarizes, na sua maior parte fazem parte do passado, embora subsistam ainda algumas pessoas que recorrem a este sistema. No entanto, será importante olhar para essas fontes, para esses fontanários de forma a preservá-los, pois fazem parte da nossa História, da evolução da rede de abastecimento de água, transmitindo aos mais novos outros modos de vida.




Contributos para a História Local de Vila Nova de Poiares III

Os Correios e o edifício da Estação de Correios de Vila Nova de Poiares

Ao longo dos tempos sempre houve quem se dedicasse a transmitir notícias. A pé, de cavalo ou de carroça, de barco ou de combóio, de bicicleta ou de motorizada, de camioneta ou de avião, os serviços dos Correios evoluíram de acordo com as necessidades dos remetentes, bem como ao sabor da evolução das vias de comunicação e dos transportes.
O serviço de Correios, poderá ter tido a sua origem em simples entregas de recados, notícias ou encomendas, a pedido não só de entidades oficiais, como também de particulares. Este carácter pouco oficial terá permanecido até meados do século XIX, apesar de já em 1520 ser algo notória a intenção de estabelecer um serviço público de Correios. Só a 17 de Setembro de 1798 se realizou a primeira viagem entre Lisboa e Coimbra, era o nascer do serviço da Mala-Posta, o qual permitia não só o transporte de passageiros, como também o envio das mais diversas encomendas. Ao observarmos uma pintura a óleo da autoria de José Pedro Roque (Figura 1), podemos analisar as várias fases deste serviço: o percurso, a ceia, a muda dos animais e a pernoita. A insegurança das estradas, o seu mau estado de conservação, o banditismo, as Invasões Francesas e o fraco movimento de passageiros, desmotivavam os responsáveis pelo serviço da Mala-Posta.
Importante veículo de transmissão de comunicações, o serviço de Correios foi cobiçado pelos Poiarenes desde as primeiras décadas após o nascimento do concelho de Santo André de Poiares (mais tarde Poiares). Num tempo em que a circulação de pessoas, cartas, mensagens, objectos de toda a natureza, era dificultada pelo transpor de barreiras naturais, os rios foram os principais meios de aproximação dos povos e veículo de transmissão de mensagens, encomendas e informações diversas, nesta altura assumiu Louredo a sua importância máxima na economia do novo concelho.
O grande edifício dos Paços do Concelho, construído na década de 60 de Oitocentos, «baluarte» da afirmação do concelho de Poiares e base fundamental dos seus serviços, veio também albergar os serviços de Correios. Ainda no século passado, em 1864, antes do segundo suprimento do concelho, é instalado o telégrafo eléctrico, inicialmente com documentos escritos. Mais tarde, no Estado Novo, o serviço de Correios é melhorado com a instalação do serviço telefónico, sendo na década de 50 dotado com uma estação telefónica semi-automática. O alargamento dos serviços oferecidos pelos Correios, fazem sentir a necessidade de alterar e alargar o espaço onde este se encontra.
Na década de 50 o concelho encontrava-se com várias obras em curso, particularmente a grande remodelação e beneficiação dos Paços do Concelho, onde os Correios haviam estado instalados, tornando mais pertinente a construção de um novo edifício para a instalação da Estação de Correios. No entanto, o processo de construção da nova Estação de Correios, não foi facilmente alcançado. Durante vários anos este problema esteve presente, não sendo de fácil resolução, visto que uma das questões a solucionar era a escolha do terreno para a instalação do novo edifício. Em meados de 1953, em reunião de diversas entidades e individualidades, foram seleccionados dois terrenos que ofereciam as melhores condições para esse objectivo. Um deles pertencia ao Sr. Manuel Leal Júnior, o outro ao Sr. Camilo dos Santos, tendo sido, inicialmente, o terreno deste último o escolhido, localizando-se frente à Praça 5 de Outubro. No entanto, esta proposta acabou por não ser aceite, tendo a cedência do terreno sido feita pelo Sr. Manuel Leal Júnior, o qual permite a utilização de um terreno fronteiro ao Jardim Municipal. Ao Sr. Américo Fernandes Coimbra coube o processo de construção do edifício, a quem os Correios ficariam a pagar uma renda mensal (até cerca de 1990). Finalmente, em 1956 é inaugurada a nova Estação dos CTT na vila de Poiares (Figura 2).
No início da década de 90, procurando acompanhar a evolução dos novos meios de comunicação e as necessidades da sociedade, a Estação dos Correios do nosso concelho, sofreu algumas remodelações. O edifício dos Correios (Figura 3), situado em frente dos Paços do Concelho e do Jardim Municipal, apresenta ainda hoje, no segundo piso (1.º andar) a configuração característica das décadas de 50 e 60 do século XX. Já o rés-do-chão foi totalmente remodelado, sofrendo alterações exteriores, de onde se salientam as amplas montras, o acesso principal do público aos serviços, o local de envio de cartas e apartados. Obviamente, não foram descurados os modernos e variados serviços de uma estação do presente. Ao utente são oferecidos os mais diversos serviços para todo o Mundo. Desde o Serviço Postal (cartas, «express mail», encomendas, etc.), a Serviços Financeiros (Certificados de Aforro, produtos de investimento ligados a seguros, à Caixa Geral de Depósitos, entre outros), produtos de Filatelia, serviço de fax, entre os mais diversos serviços.
Numa época dominada pelas novas tecnologias e pela informática, a tradição não é esquecida. Aos mais novos é oferecido um serviço curioso. Na época Natalícia chegam aos Correios inúmeras cartas de crianças dirigidas ao Pai Natal ou ao Pai do Céu, estas não são deixadas sem resposta, às crianças são enviadas algumas lembranças, permitindo o seu sorriso de Natal.
É este espírito humano, mas ao mesmo tempo moderno e eficiente, que esperamos continuar a encontrar na nossa Estação dos Correios.

Contributos para a História de Vila Nova de Poiares II

Crónicas da História Local II


Os poucos dias de sol que este mês de Fevereiro nos oferece levam-nos a sair em busca dos raios do astro rei e a fruir do contacto com o que de belo a Natureza nos dá. Se é bem visível a beleza que floresce nos campos, não menos bela é aquela que a própria mão do Homem nos oferece. Os jardins são um perfeito exemplo dessa realidade.
Não será só a beleza natural que podemos observar nos jardins. Os Jardins revelam-se também como espaços que nos transmitem aspectos mentais, culturais, sociais e até políticos de uma época. São locais onde cada um pode desfrutar de momentos de lazer e bem-estar. Partilhando a imagem da Natureza, os jardins são espaços lúdicos que retratam a paz de espírito que qualquer Homem aprecia.
Em Portugal, bem como no resto do Mundo, os jardins apresentam as mais variadas configurações. São, no entanto, mais frequentes os jardins que se acentuam pela sua forma geométrica. O Jardim Municipal de Vila Nova de Poiares, estrategicamente colocado em frente aos Paços do Concelho, é realçado pela sua simplicidade e sobriedade, as quais poderemos filiar nesse geometrismo.
A necessidade de salientar os Paços do Concelho remonta à sua construção, por volta de 1866. Como necessário complemento do edifício, foi patente durante várias décadas o desejo, por parte dos órgãos de poder, de construir um espaço fronteiriço aos Paços do Concelho. Demolida que foi uma escola, legado do Conde Ferreira, grande benemérito deste nosso país, chegava a vez de outro benemérito oferecer, a custas suas, o jardim que tanto era desejado pelos Poiarenses de então. Tratava-se do Comendador Bernardo Martins Catarino.
Em Agosto de 1951, realizou-se a cerimónia de homenagem ao benemérito que havia custeado o Jardim Municipal. As suas filhas, Sr.ª D.ª Almerinda Catarino da Silva e Sr.ª D.ª Henriqueta Martins Catarino, ofereceram o medalhão que foi colocado no Jardim Municipal, junto ao coreto. Estas Senhoras deslocaram-se do Brasil, local onde supomos que tenha sido concebido o referido medalhão, para no nosso concelho receberem as honras feitas ao seu saudoso pai. Nesta data, a Câmara deliberou conceder às mesmas o título de Cidadãs Honorárias do Concelho, sendo ainda concedido o mesmo título à bisneta do Comendador, a menina Alice Maria da Silva Ribeiro dos Santos, a qual descerrou o medalhão do seu bisavô. Este acto do Município mais não foi do que o pagamento de uma grande dívida de gratidão para com o grande benemérito Poiarense.
O estudo arquitectónico do Jardim Municipal foi realizado pelo Sr. Arquitecto Travassos Valdez, corria o ano de 1951. A figura 1 mostra-nos o jardim no seu início de vida, uma fotografia relativa ao ano de 1953 e retirada da obra Mais melhoramentos, mais trabalho - vinte e cinco anos de valorização regional, I Vol., 1928-1953, do Ministério das Obras Públicas. Aqui são realçados os aspectos geométricos, as pequenas árvores (muitas das quais vindas da Mata do Buçaco) que mais tarde se transformariam nas frondosas árvores que hoje podemos observar.
O Jardim Municipal ocupa um espaço quadrangular, tendo ao centro uma placa ajardinada (com uma forma oval), na qual se pode observar a Cruz Latina e o Brasão do Concelho, desenhados por meio de flores. Do lado Sul, foi construído em plano elevado o coreto, tendo num dos lados da sua base o pedestal (tipo muro de suporte) com o medalhão do já mencionado benemérito. Para aceder ao referido coreto foram construídas duas pequenas escadas laterais, as quais dão também acesso à abertura do jardim, a Sul. Percorrendo o jardim podemos ainda chegar aos Paços do Concelho, pela abertura a Poente, ou ainda à Estação de Correios, a Nascente. Para aceder do jardim à Igreja Matriz, a Norte, após consenso entre a paróquia e a autarquia, procedeu-se a uma remodelação do espaço que medeia entre a referida Igreja e o Jardim, passando pelo asfaltar da rua, pela construção dos muros e passeios, permitindo uma melhor circulação dos veículos no coração do concelho.
O Jardim Municipal, sofreu diversas beneficiações nos últimos anos. Procurando adaptar o jardim aos novos tempos, procedeu-se ao calcetar do piso do jardim (anteriormente em terra e areia), recorrendo ao calcário de cor branca e negra, desenhando o lema do Concelho «Fé, Acção, Unidade, Amor, Trabalho, Solidariedade», junto do bonito desenho retirado do janelão dos Paços do Concelho. Foram ainda construídos muros embelezados por gradeamentos, definindo inequivocamente o espaço deste jardim; bem como resguardos nos canteiros, tendo a própria área ajardinada sido aumentada a nascente e totalmente remodelada a sul (figura 2). Também recente foi a introdução de novos candeeiros e bancos, beneficiando este espaço de lazer.
Tendo como pano de fundo o edifício arquitectónico que lhe serve de complemento, o Jardim Municipal é também um dos pontos de passagem e de passeio, do nosso concelho.

Número 2 (28 de Fevereiro de 2000)

Alteração do texto inicial de 15/02/2000

por: Dr. Pedro Santos

Sexta-feira, Julho 18, 2008

Crónica com uma década ... mas actual - I !

Em virtude dos pedidos que temos tido para informar sobre aspectos deste concelho, decidimos publicar algumas das Crónicas de História Local e Regional que publicamos, depois de devidamente actualizadas e aumentadas em alguns casos.
É mais uma base de dados para contributos a quem tem que realizar trabalhos académicos ou outros nestas temáticas sobre Poiares.

A todos um bem - haja.


Crónica I / aboreirascriptorium

Nos primeiros dias do mês de Janeiro do ano de 1900 alguns dos jornais nacionais questionavam a mudança ou não de século. Nos primeiros dias do mês de Janeiro do ano 2000 a questão persiste. Não é apenas a dúvida que permanece, os desejos, os sonhos, as antevisões para o futuro figuraram na imprensa escrita das décadas passadas, tal como inundam os media dos nossos dias.
Ao iniciarmos este espaço dedicado à história do Concelho de Vila Nova de Poiares, justamente num período de mudança e de esperança, surge-nos como pertinente recuar ao passado por forma a avaliar o presente e perspectivar o futuro. Não fomos, no entanto, os primeiros a fazê-lo, há meio século atrás houve quem esboçasse o Poiares que estaria para vir. Assim, não podíamos deixar de vos dar a conhecer a capa de um Boletim (edição especial do Boletim da Casa do Concelho de Poiares), editado em Dezembro de 1950.
Projecto futurista desenhado por José Vítor Veneno e Eduardo Rodrigues Ferreira, acerca do qual a direcção escrevia: «O progresso nunca é um fim, é sempre uma ânsia de mais trabalho, de maior perfeição. Poiares, ou melhor, os naturais de Poiares não podem fugir a tal movimento, a esse amor pelo progresso!». Na época, os leitores deste Boletim estavam perante uma antevisão do Poiares que esperavam ser real passadas algumas décadas. E as décadas passaram.
Este desenho não foi, com certeza, o único traçado em meados do século XX prevendo o futuro. Na realidade, inúmeros artigos, caricaturas e esboços versando a realidade do «tempo que há-de vir» foram realizados ao longo da História das civilizações. Seria o século XIX, graças ao poder da imprensa, a dar às massas populares o conhecimento destas previsões futuristas, bem à maneira de Júlio Verne. Só que o desenho que o leitor tem perante si, não é de Lisboa ou de Paris, de nenhuma grande cidade se trata! É mesmo deste pequeno/grande concelho, deste pequeno espaço a que tantos Poiarenses se dedicam de corpo e alma, daí que nos tenha tocado de forma mais intensa. Daí o desejo de o partilhar com todos aqueles que fazem a raça desta terra.
Cinco décadas passaram. Engane-se quem pense que pretendemos fazer um balanço das mesmas. Não temos essa pretensão. Não estamos aqui com o intuito de avaliar o que foi feito, ou o que está por fazer. É certo que o passar dos anos dita por vezes algo contrário à vontade dos Homens, tornando a realidade diferente daquilo que quereríamos ver. A História, peneira a verdade do tempo deixado para trás, sobressaindo da obra feita, o bom e o mau.
Não foi necessário mais que meio século (e em particular os últimos vinte e cinco anos), para que uma pequena vila constituída pelo largo da igreja e por uma rua principal ladeada de prédios, se afirmasse voltada para o futuro e oferecendo a todos que a procuram um considerável índice de desenvolvimento.
Claro que já se assumia como vila em 1905, quando D. Carlos I, penúltimo rei de Portugal, lhe concede esse título. Claro que já era vila quando obteve as suas armas concelhias em 1938. Claro que manteve o seu estatuto de vila durante as difíceis décadas de '40 e '50, quando apesar da recente guerra os Poiarenses lutaram para que se levassem a cabo as necessárias obras públicas. Neste período processou-se a electrificação e o abastecimento de água a algumas partes do concelho, bem como a grande reforma dos Paços do Concelho. Poderá ao leitor parecer pouco, mas é aceitável que as obras se fazem consoante as verbas e o poder central instituído. Sabemos hoje que esses tempos não eram fáceis.
A instabilidade resultante das diversas supressões do concelho, demorou tempo a esquecer, mesmo após a sua restauração em 1898. O desenvolvimento do concelho era notório, mas faltavam grandes obras que evidenciassem o seu território, face aos concelhos vizinhos. Os notáveis Poiarenses lutaram insistentemente para que este território se mantivesse estável e autónomo dos concelhos da Lousã e de Penacova. Assim o teriam feito aquando do 2.º suprimento do concelho, tendo-se deslocado num «carro de bois» à Lousã por forma a resgatar os livros que permitiriam a restauração definitiva de Poiares.
Apesar de todos os melhoramentos feitos durante a Ditadura, pensamos que só a partir da instauração da Democracia, com a Revolução de Abril, Poiares se terá aproximado da ficção preconizada pelo desenho que, há cerca de meio século, foi publicada no Boletim da Casa do Concelho de Poiares. É bem verdade que não temos um aeroporto ou aeródromo, que não existe um grandioso estádio de futebol, nem sequer uma estação de comboios. Mas, é claro que recuando até à década de 50 o cenário era outro, as pretensões eram diferentes. A aspiração por uma estação de correios autónoma, surgia numa altura em que eram poucos os automóveis e o comboio era o veículo mais acessível e, como tal, mais desejado.
Verificamos hoje que as expectativas desse tempo, tão recente e tão longínquo, foram largamente ultrapassadas pelos progressos ocorridos nas últimas décadas do século XX. Visões que ficaram muito aquém das mudanças que se operaram quer no sector dos transportes, quer no sector das telecomunicações. Talvez tenham sido poucos os que sonharam com a sociedade consumiste do presente, com a maximização do automóvel em detrimento dos transportes públicos.
No entanto, algumas das aspirações dos nossos antepassados Poiarenses permanecem na mente daqueles que governam o presente. Sabemos que é intenção, talvez cada vez menos sonhadora e mais realista, construir um estádio de futebol, a par do já existente complexo desportivo. A aviação também não está esquecida, por certo o nosso leitor já ouviu falar do desejo de construção de um aérodromo. Continua-se a prever que Poiares poderá um dia ser servido por um metro de superfície. É aspiração de todos os Poiarenses o melhoramento das vias rodoviárias, sendo a E. N. 17 defendida acerrimamente por quem de direito.
Relativamente à indústria, podemos dizer que o parque industrial é um ex libris da região, daí que nunca mais se volte a escrever que «Poiares não dispõe da indústria necessária para o seu desenvolvimento» (Vila Nova de Poiares, Monografia, de Manuel Leal Júnior). O Mercado Municipal é hoje uma realidade pela qual tantos presidentes desta câmara municipal lutaram. A Guarda Nacional Republicana possui actualmente um quartel condigno, não se encontrando instalada numa casa de habitação da qual, noutros tempos, se pagava renda ao proprietário. Também os Bombeiros Voluntários possuem um quartel do qual se podem orgulhar.
A educação é uma preocupação e uma realidade, sendo que os nossos jovens não necessitam de abandonar o seu concelho para concluírem o ensino secundário, podendo-se mesmo esperar uma escola politécnica num futuro próximo. As diversas instituições públicas encontram-se em instalações próprias, como é o caso das conservatórias, do cartório notarial e dos correios, que em tempos foram inseridas no edifício dos Paços do Concelho.
Avenidas, ruas asfaltadas, passeios calcetados, podemos sonhar com uma urbe!
Muita coisa falta diz-nos o leitor! Claro que falta, é esse o espírito dos Poiarenses. É claro que se terá de fazer mais, mas por vezes já parece milagre, pois só podemos construir consoante o que temos.
Por vezes parece que temos muito pouco. Mas o que era Poiares há cento e sessenta e três anos? Sim quando nasceu o concelho! E há cem anos? Há cinquenta anos? Parece injusto exigir-se tanto, o possível e o impossível, mas são esses aspectos que servirão de mola impulsionadora daqueles que querem continuar o progresso desta terra. São, na nossa modesta opinião, injustos os comentários que se tecem em determinadas conversas a que por vezes assistimos.
Diversos são os comentários nos quais se compara o nosso concelho e o progresso que este teve com concelhos limítrofes, particularmente com Lousã ou Penacova. É lógico que se analisarmos a História desses concelhos nos apercebemos de que a sua antiguidade e as benesses a que tiveram direito, lhes permitem oferecer um leque mais variado de bens e serviços a que Poiares, por força das circunstâncias, nunca teve acesso. O que não quer dizer que o seu desenvolvimento recente tenha sido superior ao do nosso concelho.
Se procurarmos fazer uma comparação num mesmo período temporal, de forma alguma se poderá dizer que Poiares cresceu menos, muito pelo contrário. Poiares será um dos concelhos com maior desenvolvimento nas últimas décadas. Basta que, na referida comparação, pensemos no que eram os concelhos de Penacova, Lousã e Poiares em 1950 ou em 1974 e no seu estádio de desenvolvimento actual. Não será difícil de verificar que, proporcionalmente, Poiares terá tido um desenvolvimento mais acentuado.
Lousã e Penacova eram já concelhos centenários quando Poiares nasceu como concelho, e terá sido por isso que tantos problemas surgiram e foram inúmeros os jogos de poder. Mas, Poiares apesar de pequeno soube o seu lugar e impôs-se num território que era e é seu por direito.
Pensamos que nenhum Poiarense que ame a sua terra ache impossível que, com esforço e dedicação, se possa construir e projectar o futuro, por mais barreiras que se levantem, tudo poderá ser possível. O progresso ocorrido, neste último meio século, na História do concelho de Poiares e em particular no último quartel do século, é notório e de assinalar. Nos últimos vinte e cinco anos, Poiares marcou de uma forma definitiva a sua História, demarcando-se como concelho autónomo, como concelho que se orgulha do seu passado, do seu presente e que projecta o futuro, num território seu e com identidade própria.
Num voto de perfeitas venturas, esperamos que nos próximos anos se continuem a cumprir as profecias de alguém que em meados do século XX, traçou progressos que foram vistos como sonhadores. Progressos esses que hoje nós vemos como bem possíveis e que de futuro (esperemos que breve) sejam, uma realidade, pois estamos «caminhando para um Poiares melhor!».

(Jornal O Poiarense - do autor)



















Crónicas
da História Local


Número 1 (1 de Janeiro de 2000)

por: Dr. Pedro Santos

Quinta-feira, Junho 19, 2008

Mas afinal o que é isso das Confrarias!!!!???? - Como surgiu a para quê a Confraria da Chanfana!


Chanfana ... uma confraria a dignificar a terra e a região que a viu nascer, uma confraria que dignifica Portugal!

A Confraria da Chanfana – Vila Nova de Poiares, foi fundada em 22 de Agosto de 2001 após deliberação da Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares datada de 1 de Março de 1999. A escritura pública celebrada no Cartório Notarial de Vila Nova de Poiares contou com a presença dos Confrades Fundadores que outorgaram esta nova Associação em nome das suas Instituições e do senhor Presidente da Câmara Municipal no seu nome individual.
Posteriormente labutou-se na organização desta recém formada associação. Concepção do Traje, definição do Cerimonial, Juramento, mais tarde o Livro das Usanças e muitos outros aperfeiçoamentos que contaram com o apoio de muitos amigos, de estudiosos e de amantes das Confrarias.
Em 23 de Setembro de 2001 foi apresentada à Comunidade Poiarense e à Comunicação Social, esta nova Confraria assim como se realizou a 1.ª Mostra de Gastronomia que integrou o programa da POIARTES – Feira Nacional de Artesanato.
Também ficou decidido que a data do Grande Capítulo da Confraria da Chanfana seria no 2.º Fim de Semana em Setembro, afirmando-se desde o seu inicio como grande manifestação da riqueza e pujança de Vila Nova de Poiares.
A Confraria da Chanfana é uma aposta ganha de sobremaneira para este concelho, para a Região das Beiras de que faz parte e como um todo no universo da Gastronomia e Património Português.
A actividade da Confraria da Chanfana é invejável! A Confraria possui uma dinâmica que se deve a todos os associados (Confrades e Confreiras) que possuem o sentido da responsabilidade e de estar integrados nesta confraria. Claro que os seus responsáveis máximos eleitos por unanimidade são exigentes, mas só assim se consegue cumprir os objectivos a que ambiciosamente todos se propõem.
A Confraria da Chanfana reúne a sua Mordomia (Direcção) todos os meses e realiza cerca de 4 Grandes Banquetes (Assembleias Gerais) por ano. Nestas a participação é numerosa e os assuntos apresentados, discutidos e aprovados com grande dignidade, demonstrando grande sentido e gosto de ser membro desta Confraria. Planos de Actividade, Relatórios de Contas e de Actividades são sempre aprovados por unanimidade depois de discutidos. (Grande exemplo do sentido Confrádico.)
Na actividade Cultural concelhia é esta associação parceira imprescindível da Autarquia promovendo a Cultura e consequentemente a Gastronomia o Artesanato e tantos outros valores regionais. Possuí um Restaurante “O Confrade” que se assume como uma das «Salas de Visita do Concelho». Durante o ano em Janeiro é responsável por milhares de visitantes na “Semana da Chanfana”/ Concurso Gastronómico entre Restaurantes do Concelho; em Março, Abril e Maio organiza os eventos “Chanfana à Mesa com as Nossas Crianças” (com crianças desde o 1.º Ciclo, onde é retractado o «Ciclo da Chanfana»), “Dias Gastronómicos” (em parceria com outras Confrarias) e a “Mostra Regional de Chanfana” (concelhos vizinhos que fazem chanfana com carne de cabra em vinho).
Em Setembro realiza-se o Grande Capítulo da Confraria da Chanfana. Desde o 1.º ano tornou-se na maior expressão Confrádica de Capítulos do País e provavelmente da Península Ibérica.
Durante todo o ano a Confraria tem um papel activo, desdobrando-se num grande esforço para estar em todos os eventos a que é solicitada a dizer “presente”.
Capítulos Gastronómicos, Feiras de Gastronomia, Eventos realizados em Casinos, Painéis de Júris, Congressos Nacionais e Europeus, Revistas da Especialidade, Rádio e Televisão num esforço grandioso de levar a Chanfana e a Gastronomia Tradicional Portuguesa a tudo e a todos num sentido de enaltecer a “Boa Mesa Nacional”.
Mas talvez o valor mais significativo da força enraizado nesta Confraria seja a humildade de ter sempre aprendido com os demais, discutindo os seus ideais e valores, para depois também ela poder ensinar apoiando o surgimento de novas Confrarias e todas juntas contribuírem para um grande legado na cultura deste nosso Portugal.






Terça-feira, Maio 06, 2008

comidas de tacho e bancos de igrejas - curiosidades


A maior parte dos jovens de hoje poderá desconhecer dois factos curiosos. Os bancos da Igreja são sobre o comprido com a finalidade de levar mais pessoas e imbuídos do espirito de que “cabe sempre mais um” apertando-se um pouco mais.

Muitas das comidas apetitosas que hoje degustamos são “comidas de tacho”! Em tempos de carestia com falta de carne ou peixe, era juntar um pouco mais de água, arroz ou massa ou batatas e assim chegava sempre para mais um.

o que penso sobre o 1.º de Maio


primeiro de Maio

O primeiro de Maio grosso modo tem a importância das lutas de quem trabalha. Redução de horário de trabalho para as “celebres” 8 Horas e melhores condições de trabalho em geral. (8 horas de Trabalho, 8 horas de Lazer/Casa/Família/ Estudo ou Formação e 8 horas para Descansar)
Muitas destas “lutas” sociais tiveram lugar no século XIX, nomeadamente da classe operária despontada da Revolução Industrial. É difícil para alguns comentar ou perceberem estas lutas sociais. São novos, as matérias de História são pesadas!! ... Mas a verdade é que, se pegarem num qualquer compendio do 10.º ou 11.º ano de escolaridade tem alguma informação sobre a exploração “capitalista desenfreada” do século XIX e inicio do século XX. (As 15 ou 16 horas de trabalho diárias que se faziam e infelizmente ainda se fazem em muitos locais do mundo)
Neste espaço que se quer de leitura fácil não comentamos outras questões mais sensíveis, mas recorde-se apenas o incidente de 1887 nos Estados Unidos da América “Os Mártires de Chicago” onde foram torturados (8 trabalhadores) e condenados à morte (4) por terem desafiado os senhores do Capital a titulo de “exemplo” para os outros (semelhante a tudo quanto é prepotência e ditadura/ gostam muito de reprimir com base no “exemplo para os outros”/ já na Idade Média se fazia o mesmo na Praça Pública, nos Pelourinhos a bem de “Servir de Exemplo”!)
Criou-se e explorou-se então os ideias socialistas e sociais – democratas (busca de harmonia social), já para não falar nos ideias de esquerda, de que não vale nem queremos aprofundar por talvez estarem desajustados.
Mas só a titulo de curiosidade, na base do pensamento, temos um “pai” comum Karl Marx. Este realmente foi quem “buscou” acabar com as desigualdades sociais (claro que sabemos que é utópico)! Na socialdemocracia também ela com raiz neste Filosofo assim como em Friedrich Engels e Karl Kaustsky , buscava-se grosso modo o mesmo e digamos que tinha como finalidade estabelecer o comunismo ou socialismo por uma revolução pacífica e democrática. (Era o que inicialmente se defendia.)
Hoje sinto que a maior parte da população portuguesa, associa este dia aos Sindicatos aos Partidos de Esquerda e aos Reaccionários. Se o é, não devia ser!
Noto no entanto algo interessante e penso que seja conjectural. Fala-se no nosso país pouco no 1.º de Maio e muito no 25 de Abril. Talvez seja lógico! ... ou talvez não!
O 1.º de Maio talvez seja incomodo, defende valores que se conseguiram depois do 25 de Abril para quem trabalha por conta de outrem. Tem expressão mundial, nomeadamente na América e Europa. Defende as tais 8 Horas de trabalho!!!!!!
O 25 de Abril é nacional, defende “talvez” a democracia em que vivemos do sistema oprimido anterior. Alguém muito melhor que eu fará as analises que começam a urgir fazer sobre esta “Revolução Nacional” que substituiu Grupos Económicos por outros Grupos Económicos, Policias Especiais por outras Policias Especiais, que concedeu privilégios a uma dada Classe Política (socialistas e sociaisdemocratas), que substituiu a anterior, ... enfim que teve a duração de apenas 30 anos (ou seja para quem a fez)! Sim porque agora começamos a pagar. Digamos que talvez tenha sido uma Revolução de Cravos feita para uma “geração” não para melhorar as outras vindouras! Essas já começaram a pagar.
Claro que será conjectural e não passará da 2.ª ou 3.ª Geração sem haver outra «Revolução» esperemos que sem cravos mas com rosas, que sempre teem os espinhos do trabalho antes de chegar à estabilidade sustentada à tal harmonia dos ideais socialistas e sociaisdemocratas.
O 1.º de Maio é incomodo, agora que já se fala em fazer mais que as tais 8 Horas. O 1.º de Maio é complicado porque o que é necessário é trabalhar muito!!!!, ... nos países nórdicos não é preciso trabalhar muitas horas, mas as horas certas e com método, com condições de trabalho, com rigor e competência, mas acima de tudo com profissionalismo. A produtividade não tem haver com o aumento de horas, mas com valores como a estabilidade emocional do trabalhador, a motivação, as condições reais de trabalho e tantos outros que fazem com que o desempenho produza resultados exigentes. Pena é que este discurso não seja interessante e assim em torno das suas capelinhas o 1.º de Maio não tem e passará a ter cada vez menos expressão!
... até um dia como a História sempre dita, ... voltar a ter.

Pedro Santos

Terça-feira, Abril 22, 2008

pedaços de histórias das minhas raízes – II



Talvez dos circuitos mais significativos da História de Poyares, sejam as estradas de Poiares (Vila) para a Venda Nova assim como a estrada de Poiares (Vila) para o Pinheiro e Abraveia, ... assim como também Póvoa da Abraveia, Algaça e Pereiros/ Santa Maria.
Bem, se acrescentar ainda Poiares (Vila) a São Miguel e Poiares (Vila) e a Vila Chã/ Forcado, pouco nos fica para contar. Claro que também à a do Carvalho e a ligação à Ponte Mucela. E a estrada das Ribas pois claro que era para ser a verdadeira estrada da Beira como o queriam as Câmaras de início do século.

Bem mas esta que vou comentar é uma estrada que me diz algo...
Uma estrada que de pequeno fiz várias vezes! A estrada da Catraia das Necessidades/ Risca – Silva/ Cabecinhos/ Segundeira e por vezes até aos Moinhos e Venda Nova.
Os meus Avós Paternos viviam atrás da Capela de nossa Senhora das Necessidades na Catraia das Necessidades. Tive um arraial enorme para brincar para apanhar pinhões nos pinheiros mansos que lá existiam, para ver os coelhos a saltitar por debaixo da Capela (ainda antes de terem feito o muro) e podia-se brincar sem medo!
A casa dos meus avós, hoje em ruína, possuía um traçado interessante na senda das construções beirãs! Um tipo de varanda que dava para o pátio fechado mais tarde marquise, tinha acesso por escada de pedra. Primeiro era a cozinha, depois um quarto que no inicio teria sido sala de jantar (possuía um janelo característico para passar comidas, depois uma pequena casa de banho que não existia primitivamente e por fim uma sala donde derivavam dois quartos e um terceiro que fora acrescentado. De pátio fechado, com lojas por baixo, tinha o espaço primitivo dos animais, da loja dos palanques das batatas e das arcas de cereais, e um pequeno quarto a que se juntava a adega. Já do lado de fora da casa mas a dar para o pátio na mesma a casa do forno e o celeiro, onde havia muita palha e animais. Este mais tarde foi transformado em área de negócio (quando de obras de adaptação, vivia um grande “cobrão” que lembro-me vagamente o dia que os homens fizeram de matança ao “bicho” e de o meu pai o levantar num pau enorme).
Os meus avós maternos viveram na Risca – Silva e tinham lá casa que foi comprada por a minha Tia Avó Alice. Tios avós desse lado da família tinha-os também na Venda Nova onde fui por várias vezes em casas mui antigas do tio Joaquim Rosa e da tia Altina (irmã da minha avó). Dos meus avós paternos, tinha os meus Tios Avós nos Cabecinhos e Segundeira, mas também na Risca – Silva, ai nesse lugar do lado do avô e do lado da avó.
Consigo-me lembrar ainda da última “venda”/ Taberna da Risca – Silva, onde existiam inúmeros copos muito grossos e “taças” onde se bebiam “os copos” e se viam os pipos. Com dificuldade ainda hoje consigo ver a silhueta das letras na cal antiga dessa casa aludindo aos dizeres de bebidas. Depois o resto é engraçado, em frente a Quinta Nova onde me lembro ainda de ter vivido a minha Tia Avó Alice e as minhas primas Rosa, Alice e Irene, do lado o Tiago em frente o Tonecas acima o Candeias, mais a cima a casa que tinha sido do “Augusto vinte ovelhas” (do meu Bisavô) e como na canção em terra pequena ... “todos são primos e primas”! «Aliás este tipo de assunto coloca-nos algumas questões! Por exemplo a questão da consanguinidade, a questão da possível descendência dos hoje naturais de Poiares. Muçulmana, tribal (como cigana) e outras situações como Judia por exemplo. Um assunto que de futuro irei analisar e ver se tem sustentação.»
Nessa parte da família da mãe, também é interessante os contos da tal sobrinha do “Almeida Garrett” que casou com um tio da minha mãe e dos quais ainda fui ver casas velhas, mas ao pé do Estádio das Antas no Porto donde ainda veio uma herança diminuta depois de dividida por Bragueses e Cordoezes. Vidas pois! Tenho uma lembrança dessa história toda. Do tal tio avô “galante” do negócio do “sarro” e “marchante” que casou com a tal “menina” do Porto muito rica da família de Garrett!
A estrada da Risca – Silva faz-me ter recordações que se encaixam bem na História de Poiares dos últimos 30 anos. Várias vezes fui ver o moinho da cera da Casa dos Moinhos acima da Segundeira, fui varias vezes de bicicleta até à antiga fábrica “Santa Rita” onde vi máquinas antigas e o pormenor de uma máquina de fazer telha ter sido “parada” quando estava a fazer provavelmente a última telha, assim como inúmeros aspectos que hoje me fazem rir de aprendiz de Arqueólogo. Há já 11 anos (nem percebo bem como o tempo passa!), fiz a primeira notícia sobre História Local de Poiares. Saiu em 1997 e nessa altura estudava então uma cadeira de Arqueologia Industrial dada pelo insigne professor Amado Mendes na FLUC.
Salientei inúmeros aspectos que se poderiam valorizar na História de Poiares, aliás como o tenho feito desde essa altura, mas o resultado tem sido sempre muito decepcionante! Pouco se tem feito para deixar vestígios nas mais várias áreas da História apegando sempre a ideia que pouco se tem!
Todos os terrenos do ribeiro que passa na Segundeira são meus conhecidos. Em pequeno calcorreava esses até às canas da índia que estavam na “sorte” da “Tia’delaide”! O tio Antonino sentado numa tábua em cima de uma “bigorna” tinha a acompanhar um carro que hoje iria buscar fosse onde fosse. Lembro-me de dar à manivela para se por a trabalhar. O lagar da Casa dos Moinhos mais acima era local de passagem e gostava de ver o “fuso” em madeira que teimava em estar no ar! Depois eram inúmeras silvas e outra bicharia por todo o lado. Desses lagares que tantos existiram no concelho não se recuperou um que ficasse a perpetuar a memória! Como é possível! Lembro-me também do do “Russo” já a caminho do “tal” Espadanal agrícola e florestal. Esse moinho tinha também uma particularidade. Além dos casais de mós onde brincávamos tinha um motor, afastado uns 10 a 15 metros que em tempo de carência de água já funcionava a fuel. E brincava-se nos prados secos ou verdes com as tais cabras e ovelhas ao lado, sim dessas que hoje não se vêem ou vêem poucas e não se falava em raptos nem nada que se parecesse.
Esta estrada da Risca – Silva como o já referi noutros locais era de estrema importância para o concelho. Mais tarde designada EM 541 (Venda Nova EN 17 – Ribas EN 17) era a estrada que se pensou substituir a Beira.
Neste trecho teve a importância de ligar várias questões à sede de Concelho. A água que vinha do Jagundo (Venda Nova) para a Vila Sede de Concelho, deixando inúmeros bebedouros, fontes e chafarizes. Fazia a ligação da estrada da Aboreira que vinha da Ribeira do Moinho desde tempos imemoriais, de grande parte do tráfico das Beiras Interiores como Arganil, Gois, Friúmes (Penacova) / ainda hoje se sente na Feira do Concelho e até no Centro de Saúde (atendimento de pessoas que apesar de serem do concelho de Penacova vêem ter consulta em Poiares) e o comercio fazendo que no trajecto as casas à beira estrada aproveitassem as várias portas comerciais para vender e comprar. A expansão da Vila de Poiares a Nascente, tem tudo a ver com esta aproximação à estrada. Hoje com inúmero trafego, que, para uma zona urbana deveria ser controlado, consegue ainda manter alguma “traça” arquitectónica do Poiares Oitocentista e de inícios de Novecentos! Por quanto tempo? Não sei. Julgo como alguns dos meus antecessores Históricos que tudo se vai perdendo no tempo, não por culpa apenas deste, mas acima de tudo por vontade dos Homens.
Pedro Santos